A estrutura de peões centrais
Aulas Por GM Everaldo Matsuura Quinta-Feira, 15 de setembro de 2016

 

 

Peões suspensos (“colgantes” ou par de peões isolados)

GM Everaldo Matsuura - 2000

O título acima tem como característica a presença de peões nas colunas "c" e "d " e ausência nas linhas "b""e " para um dos bandos, enquanto que ao adversário faltam peões nas verticais "c" "d"

Para efeitos práticos os exemplos aqui demonstrados, no instante em que sobrevier esta estrutura, sempre contarão com seis peões para cada lado e o par central será "c4 e d4" ( c5 e d5) ou "c3 e d4" (c6 e d5).


Kasparov - Portisch [E12]
Niksic, 1983

1.d4 ¤f6 2.c4 e6 3.¤f3 b6 4.¤c3 ¥b7 5.a3 . Na Defesa Índia da Dama (bem como na Ninzoindia) a luta pela casa"e4" é de grande importância e, sendo assim, o lance do texto, que caracteriza a Variante Petrosian, vem reforçar esta idéia, já que impede a cravada do N de "c3"5...d5 6.cxd5 ¤xd5 .Tem a virtude de não fechar a diagonal do bispo da dama mas, por outro lado, deixa as brancas com uma maioria de P no centro. 7.e3 ¤xc3 8.bxc3 ¥e7 9.¥b5+ c6 10.¥d3 c5 11.0-0 ¤c6. Nesta posição é mais seguro desenvolver primeiro esta ala e, somente depois que a Q branca tenha se decidido a ir para a natural "e2", realizar o 0-0. Se 11....0-0 12 .Qc2 e as pretas estão obrigadas a debilitar seu flanco do Rei. Ver Kasparov-Petrosian, Moscou 1981. 12.¥b2 ¦c8 13.£e2 0-0 14.¦ad1 . Agora 14.Qc2 já não seria efetivo, pois a R negra esta em "c8". É claro que as brancas podem, a qualquer momento, jogar e4, mas Kasparovtem outra idéia em mente. 14...£c7?! Teria sido melhor 14...cxd4 imediatamente e se 15.exd4 Na5 seguido de Bf6.15.c4 . Muito mais eficaz do que 15.e4 Na5, visto que os dois BB brancos ficam preparados para varrer o roque adversário que, momentaneamente, encontra-se desguarnecido. Aqui se faz notar a ausência do N preto em "f6", o qual, em situações análogas, é uma peça defensiva importantíssima. 15...cxd4?! .As pretas desejam, com o surgimento dos peões suspensos, criar alvos de ataque no centro branco. Em vão, pois com a abertura central, o branco recebe condições de lançar-se a um ataque devastador contra o monarca inimigo. A tentativa de opor-se ao Bispo de "b2"com 15...Bf6 não funciona. Seria preferível, no entanto, 15...Na5 imediatamente, embora depois de 16.d5 a iniciativa branca persista. [15...¥f6 16.d5 ¤e5 17.¤xe5 ¥xe5 18.¥xh7+ ¢xh7 19.£h5+] 16.exd4 ¤a5 !!! 
Neste momento chegamos a posição característica de nosso estudo. Como já pontuamos anteriormente, o principal defeito da posição negra e a carência de proteção ao seu roque. Se acrescentássemos um N preto em "f6" e outro branco em "c3", o rei preto estaria infinitamente mais seguro. Na atual conjuntura, a seguinte ruptura "standart" tem um efeito mais contundente. 17.d5! Exd5 O planejado 17...Nxc4 é impossível em vista da seguinte variante:[17...¤xc4 18.£e4 g6 19.¥xc4 £xc4 20.£e5 f6 21.£xe6+ ¦f7 22.¦c1 £a6 23.d6 ¦xc1 24.¦xc1 ¥d8 25.¤g5 fxg5 26.¦c7! ¥xc7 27.£e8+ ¦f8 28.£e5 ¢f7 29.£f6+] Note que depois que o peão de "e3" desapareceu é mais fácil a Qbranca entrar em ação. 18.cxd5 ¥xd5 .É difícil propor uma alternativa que detenha a ameaça 19.Qe4. 19.¥xh7+ ¢xh7 20.¦xd5 ¢g8 .Não há tempo para reposicionar o Na5[20...¤c4 21.¦h5+ ¢g8 22.£e4 f5 23.£e6+ ¦f7 24.¥xg7 £c6 25.¦h8+ ¢xg7 26.£xc8] 21.¥xg7!! Um sacrifício temático, mas que requer audácia para ser executado. Como recompensa pela peça, as brancas criam diversas ameaças ao soberano negro, que por sua vez ainda dispõe de recursos defensivos. Isso significa que não há nenhuma via forçada que conduza necessariamente ao triunfo, e se o então futuro campeão mundial tomou tal decisão, o fez movido tanto por um cálculo concreto quanto pela intuição. 21...¢xg7 22.¤e5 ¦fd8 .É necessário preparar a fuga do K e ao mesmo tempo defender a casa "d7". Claro que existem outras opções, tais como: 22...f5 , 22...Rh8 ou 22...Qc2, todas, porém, são inferiores a textual (pede-se ao leitor comprovar esta afirmação). 23.£g4+ ¢f8 24.£f5 f6 [Se 24...¥d6 25.£f6 ¢g8 (25...¤c6 26.¤g6+ ¢e8 27.¦e1+) 26.£g5+ ¢f8 27.£h6+ ¢g8 (27...¢e8 28.¦e1) 28.¤g4+-] 25.¤d7+ ¦xd7 [Tanto 25...¢f7 26.£h7+ ¢e6 27.¦e1+ ¢xd5 28.£e4+ ¢d6 29.£e6#; ou 25...¢g7 26.£g4+ ¢f7 27.¦e1 ¤c6 28.£e6+ ¢g7 29.¦d3 são sem esperanças para as pretas] 26.¦xd7 £c5 27.£h7 . Apesar da redução dos efetivos, as ameaças continuam: 28 Re1 ou 28.Re7 Qe7 29.Qh8 Kf7 30.Qc827...¦c7 28.£h8+! Este lance evita uma armadilha impressionante: [28.¦d3? £xf2+ 29.¢xf2 (29.¦xf2 ¦c1+ 30.¦f1 ¥c5+) 29...¥c5+ 30.¢g3 ¦xh7 e a partida deve empatar.] 28...¢f7 29.¦d3 ¤c4 30.¦fd1! ¤e5? .A última esperança era cerrar a coluna "d" . [30...¥d6 31.¦d5 £c6 (31...£xa3? 32.¦xd6 ¤xd6 33.£h7+) 32.h4 e este peão passado deve decidir] 31.£h7+ ¢e6 [Se 31...¢f8 32.¦d8+; 31...¢e8 32.£g8+ ¥f8 33.¦d8+ ¢e7 34.£xf8+]32.£g8+ ¢f5 33.g4+ ¢f4 [33...¢e4 34.£h7+; 33...¤xg4 34.¦d5+] 34.¦d4+ ¢f3 35.£b3+. 1-0