O adeus a Viktor Korchnoi - o Grande Mestre mais atuante da história do xadrez
Artigos Por Vanessa Rodrigues Quarta-Feira, 08 de junho de 2016

Viktor Korchnoi Crédito: MARY DELANEY COOKE/CORBIS VIA GETTY IMAGES 

 

Texto original: www.telegraph.co.uk

 

Viktor Korchnoi, que morreu aos 85 anos, foi um dos Grandes Mestres mais consistentes do circuito internacional e considerado por alguns como o mais forte jogador de xadrez a nunca ter sido campeão do mundo; em 1976 ele se tornou o primeiro Grande Mestre russo a desertar da União Soviética e grande parte de sua carreira posterior foi ofuscada pelas políticas da Guerra Fria.

Korchnoi iniciou sua carreira enxadrística internacional nos anos 50 e nos anos 60 venceu o Campeonato Soviético por quatro vezes. Ganhou cinco títulos do Campeonato Europeu, dois torneios interzonais para o campeonato mundial, e dois Torneios de Candidatos: em 1977 e 1980.

No seu auge era conhecido como “Viktor o Terrível”. Durante o início de sua carreira o seu estilo de jogo era caracterizado pelo contra-ataque agressivo e pela defesa tenaz. Mas no auge ele se tornou um atleta polivalente, jogando igualmente bem com ou sem a iniciativa, no ataque ou na defesa.

Jogou o primeiro de muitos matches contra seu grande rival Anatoly Karpov em 1974, mas foi o segundo confronto, em 1978, dois anos após a deserção de Korchnoi, que realmente levou a dupla – e o jogo de xadrez – à atenção internacional.

O match, que aconteceu em Baguio, nas Filipinas, acabou se tornando um dos mais bizarros já disputados no Campeonato Mundial. A equipe de Karpov contava com o Dr. Zukhar (um hipnotizador bem conhecido) e nada menos que 17 agentes da KGB que estavam lá para assegurar o resultado “certo”. Korchnoi, por sua vez, contratou os serviços de dois membros de uma seita religiosa indiana, por garantia contra assassinato.

No decurso do torneio houve alegações sobre radiografias de cadeiras, protestos a respeito das bandeiras usadas no tabuleiro (Korchnoi se ofereceu para jogar sob a bandeira pirata quando lhe foi negado o direito de jogar sob a bandeira suíça) e reclamações sobre as atividades de distração do hipnotizador e sobre o espelho dos óculos de Korchnoi.

Quando a equipe de Karpov lhe enviou um iogurte de blueberry durante uma partida sem que ele tivesse pedido, a equipe de Korchnoi protestou dizendo que devia ser algum tipo de código.

As atitudes grosseiras fora do tabuleiro são mais lembradas que o próprio match disputado. Karpov começou com vantagem, mas Korchnoi conseguiu um impressionante retorno no final do  match, vencendo três de quatro jogos consecutivos para igualar a disputa: cinco vitórias para cada um. Karpov venceu apertadamente o último jogo e levou o match para 6-5, com 21 empates.

De 1954 a 1990, Korchnoi disputou cerca de 70 torneios internacionais de xadrez e venceu ou dividiu o primeiro lugar em 40 oportunidades. Ele ficou em posição inferior ao terceiro lugar apenas sete vezes na sua carreira. Incomum entre os mestres de xadrez, continuou a competir em torneios importantes até idade avançada. Na verdade, ele encerrou sua carreira com a marca histórica de ter sido o único septuagenário a permanecer entre os cem melhores do mundo.

Viktor Lvovich Korchnoi nasceu no dia 23 de março de 1931, em Leningrado, durante o primeiro plano de cinco anos de Stalin. Seu pai, um professor de Língua e Literatura Russa, conseguia arcar com as despesas familiares trabalhando em uma fábrica de doces. Sua mãe, uma pianista que tinha estudado em um conservatório, era uma mulher excêntrica e difícil e a família se desfez logo após o nascimento de Viktor, e seu pai acabou se casando de novo.

Incapaz de manter as despesas sozinha, sua mãe foi forçada a entregá-lo para o ex-marido e ele foi inicialmente criado por uma avó polonesa que o fez ser batizado como Católico Romano.

Quando a União Soviética entrou na Guerra em 1941, o pai de Viktor foi enviado ao fronte e morreu em uma das primeiras batalhas contra os alemães. Então, dentro de poucos meses, devido ao cerco de Leningrado, sua avó e o irmão dela morreram de fome, deixando Viktor sob os cuidados da madrasta, uma mulher gentil que o pegou como se fosse seu próprio filho.

Viktor aprendeu a jogar xadrez com seu pai quando tinha seis anos de idade e, como a guerra tinha acalmado por volta de 1943, ele e um amigo se matricularam em um clube de xadrez no Palácio dos Pioneiros (clube de jovens) onde ele participou de torneios e estudou com o Grande Mestre Batuyev e, depois que a guerra acabou, com VG Zak que também tinha descoberto o talento de Boris Spassky.

Em 1946 Korchnoi havia alcançado a primeira categoria de rating e no ano seguinte venceu o campeonato nacional da juventude. Em 1949, uma equipe juvenil de Leningrado que tinha Korchnoi, Spassky e Luitkov ficou em primeiro lugar em um torneio nacional e Korchnoi foi premiado com o título de candidato a mestre.

Em 1948 matriculou-se na Universidade de Leningrado para estudar História – um curso de seis anos. Como ele mesmo admitiu em suas memórias, Chess is my Life (1977), não poderia ter feito uma escolha pior: “Todo esse tempo, ao invés de estudar história, eu tive um curso prolongado de Marxismo.” Saiu da faculdade sem ter se qualificado em História, mas com uma compreensão aprofundada do jogo de xadrez.

Em 1951 tornou-se um dos 50 mestres de xadrez do país, depois de ter derrotado Smyslov, então número dois do mundo. No ano seguinte se classificou para o Campeonato de Xadrez da URSS, o qual ele venceu por quatro vezes ao longo de sua carreira (em 1960, 1962, 1964 e 1970).

Em 1954 jogou pela primeira vez um torneio internacional em Bucareste – e venceu. Em 1955, em um Torneio Desafio europeu por equipes, ocorrido em Hastings, ele ficou em primeiro. Conseguiu o título de Mestre Internacional em 1954 e de Grande Mestre em 1956.

Korchnoi passou os 20 anos seguintes viajando de torneio a torneio e chegou à final do Candidatos, o match que determinaria o próximo desafiante de Bobby Fischer para 1975. Seu oponente era Anatoly Karpov, a mais nova estrela do xadrez escolar russo. Karpov venceu a disputa realizada em 1974 e se tornou o Campeão Mundial porque Fischer se recusou a defender seu título.

O recorde de torneio internacional de Korchnoi era impressionante, mas, como resultado de sua sinceridade e desentendimentos com os agentes da KGB, ele acabou encontrando menos oportunidades e estagnou em relação às estrelas mais jovens, Spassky e Karpov. Por isso, durante o torneio de xadrez patrocinado pela IBM em 1976, em Amsterdã, Korchnoi solicitou asilo político na Holanda, tornando-se o primeiro Grande Mestre russo a desertar da União Soviética.

De 1978 em diante, as manchetes eram dominadas pela luta titânica de Korchnoi para derrubar Karpov de sua posição de campeão mundial, uma batalha na qual o jogo em si ficava em segundo lugar.

 

Korchnoi (direita) e Anatoly Karpov, 1975 Crédito: KEYSTONE/HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES

 

Após perder, por pouco, para Karpov em 1978, Korchnoi voltou à briga em 1981, ressurgindo como o campeão do Candidatos contra o finalista russo Robert Hueber para desafiar Karpov em Merano, Itália. Mais uma vez o match foi disputado em um cenário de manobras políticas. A esposa de Korchnoi, Bella, e o filho Igor ainda estavam na União Soviética e pouco antes do match acontecer, Igor foi preso tentando emigrar.

A tensão emocional talvez tenha contribuído para seu péssimo desempenho, o que as manchetes chamaram de “Massacre em Merano”. Foi somente após seis anos de sua deserção que seu filho teve a permissão para deixar a União Soviética.

O GM jogou no próximo ciclo do Candidatos, e no seu decurso teve que enfrentar o jovem russo talentoso chamado Garry Kasparov. O match estava marcado para ser disputado em Pasadena, na Califórnia, mas a Federação Russa de xadrez protestou e Kasparov não conseguiu permissão para viajar para a América, deixando Korchnoi vencer por WO.

Korchnoi, entretanto, concordou em jogar o match em Londres. Após um bom começo, ele foi derrotado por Kasparov, que teve problemas parecidos com a Federação Soviética de xadrez, que favorecia Karpov e punha obstáculos no caminho do jovem Kasparov.

 

Korchnoi enfrentando Garry Kasparov em Londres, 1983  Crédito:  NILS JORGENSEN/REX/SHUTTERSTO​CK

 

Durante os anos de 80 e 90, quando se mudou para a Suíça, o Grande Mestre continuou jogando com sucesso eventos de alto nível, embora suas performances ficassem cada vez mais ofuscadas pelos conflitos Karpov – Kasparov.

Korchnoi escreveu sobre sua carreira pela primeira vez em 1977 no Chess is my Life e também escreveu ou co-escreveu vários livros sobre estratégia de jogo. Depois do fim do Comunismo Soviético, ele foi autorizado a retornar a São Petersburgo onde, em 2001, a Federação de Xadrez local organizou um torneio para marcar seu aniversário de 70 anos.

Depois que seu primeiro casamento acabou, ele casou-se com Petra Leeuwerik.

Viktor Korchnoi, nascido em 23 de março de 1931, falecido em 6 de junho de 2016. 

 

Texto publicado pelo jornal The Telegraph e traduzido por Vanessa Rodrigues - Editora CXOL