Kasparov e esse fogo sagrado: depois de 11 anos de afastamento, mostrou sua força sobre melhores jogadores dos EUA
Artigos Por Vanessa Rodrigues Sexta-Feira, 13 de maio de 2016

Texto de Carlos A. Ilardo 

Traduzido do Espanhol por Vanessa Rodrigues

Aos 53 anos de idade, o campeão mundial disputou um match de exibição contra três melhores enxadristas norte-americanos e não fez feio.

O russo Garry Kasparov, um dos melhores enxadristas da história, acaba de dar uma mostra de seu talento e força; depois de onze anos de seu anúncio de afastamento oficial das competições (depois de ganhar o Magistral de Minares em março de 2005), participou em Saint Louis de um match de exibição de partidas rápidas contra os três melhores jogadores locais: Fabiano Caruana (atual campeão norte-americano e o nº 3 do mundo), Wesley So (vice-campeão e nº 10) e Hikaru Nakamura (terceiro lugar e nº 6). Kasparov ocupou 3º lugar, com 9,5 pontos (53% da disputa); meio ponto a menos que o segundo, So, que fez 10 pontos e um ponto e meio atrás do líder, Nakamura, que fez 11. Caruana totalizou 5,5. Mais um detalhe: nos duelos individuais (cada jogador enfrentou seis vezes o seu rival) Kasparov superou Nakamura – o campeão – com duas vitórias, uma derrota e três empates.

Faz uma semana que terminou o tradicional campeonato norte-americano de xadrez, uma competição histórica que ainda mantém o recorde de Bobby Fischer (8 títulos, dos quais sete foram de maneira consecutiva) e que foi vencido por Fabiano Luigi Caruana, um jovem nascido em Miami em 1992, que fez sua carreira no xadrez com cidadania italiana e que em 2015 pediu para trocar de federação para representar os EUA.

Caruana, que tem 23 anos, foi seguido por Wesley So, um jovem filipino de 22 anos, que quando tinha 15 sua força de jogo era superior a do campeão mundial, Magnus Carlsen, e que a pedido do novo patrono do xadrez norte-americano, o multimilionário Rex Sinquefield, adotou a cidadania americana para reforçar a equipe olímpica. Também nessa competição Hikaru Nakamura, 28 anos, nascido em Osaka (Japão), de pai japonês e mãe norte-americana, que chegou aos Estados Unidos com 2 anos e que desde os 6 se dedica ao xadrez – aos 15 superou (em 3 meses) o recorde do Bobby Fischer ao se tornar Grande Mestre – ocupou o 3º lugar.

Sem ter ciência da classificação final, Kasparov (que foi contratado por Sinquefield) aceitou o desafio de jogar um match de partidas rápidas (5 minutos com acréscimo de 3 segundos desde a primeira jogada para cada jogador) emparceirados no sistema “round robin” (todos contra todos)com dezoito rodadas em dois dias. 

“Garry participa dessa exibição como um favor pessoal a Rex Sinquefield, o milionário, fundador e dono do Clube St. Louis” contou Mig Greengard, assistente de Kasparov que completou: “Rex é amigo pessoal de Garry e tem se esforçado muito para promover o xadrez nos Estados Unidos, organizando super torneios em Saint Louis. Ele também deu uma contribuição para que Kasparov participasse de uma exibição no ano passado, com formatos de tempo diferentes, contra o inglês, vice-campeão mundial, Nigel Short (Garry impôs 8,5 a 1,5) e, mesmo que as partidas nesses ritmos não sejam tão sérias, sem dúvida divertem muito os telespectadores.”

Contra Martí Perarnau em seu livro “Herr Pep”, uma crônica que se refere ao primeiro ano de Pep Guardiola no Bayern de Munique, cujo primeiro capítulo se refere ao encontro do ex treinador do Barsa com Kasparov em Nova York, no qual ele descobre que o russo continua sendo o melhor enxadrista do mundo, mas que não é capaz de vencer um match contra o atual campeão mundial, Magnus Carlsen, de 25 anos. “Tenho capacidade para ganhar, mas é impossível”, confessou.

Ao ouvir isso, Pep pensou que se tratava de uma resposta politicamente correta, e duvidou de sua veracidade. Sentia que Kasparov falava de um desgaste, algo que ele mesmo havia sofrido e por isso tinha decidido se afastar do time de Messi. Está me dizendo que tudo é consequência da falta de uma maior concentração? - Perguntou o catalão. E continuou fazendo perguntas. Por que um enxadrista lendário pensaria ser impossível bater em um jovem rival, qual é o problema?
A conversa poderia ser eterna; o orgulho de Kasparov nunca o perdoaria e, por isso, a resposta não saiu de seus lábios, mas dos de sua esposa, Dasha. Ela rompeu o silêncio e contou: “Pep, se fosse apenas uma partida e durasse apenas duas horas, Garry poderia vencer Carlsen. Mas não é assim; as partidas duram cinco ou seis horas e o cérebro de Garry não consegue suportar o sofrimento de ficar calculando centenas ou milhares de variantes sem descanso. Carlsen é jovem e não tem consciência do desgaste que sofre; Garry sim, já conhece isso e não quer repetir. Uma coisa é ficar concentrado por duas horas, outra é ficar assim por cinco horas. Por isso seria impossível para Garry ganhar hoje de Carlsen.”


Talvez o exemplo sirva para resumir o que aconteceu nas partidas em Saint Louis, o xadrez de Kasparov continua superior ao dos melhores jogadores, sua técnica refinada, seu desejo de vencer, sua atualização constante das novidades e seu tato, sua intuição para descobrir a melhor resposta em cada posição parece estar intacta, mas o homem nascido em Baku em 1963 e indiscutivelmente o nº 1 do mundo entre 1985 e 2005 já não tem a mesma força para disputar partidas de reflexões profundas ante a força da juventude. Por isso aceitou jogar partidas rápidas, mas o resultado rápido dos jogos também causa um desgaste nos reflexos. No fim, ficou em evidência o desgaste sofrido e Kasparov encerrou sua participação com 1,5 ponto atrás do ganhador, Nakamura – embora, uma vez mais, tenha demonstrado sua capacidade e vontade de luta para não aceitar empates fáceis e lançar desafios em cada jogo até o último movimento.


Sem dúvida Kasparov, como o grande campeão que é, equiparado aos grandes ícones do esporte, mantém esse particular fogo sagrado que faz toda a diferença.

 

Texto original: canchallena.lanacion.com.ar